segunda-feira, 12 de março de 2018

Emma Goldman, Alexander Berkman, e o anarquismo do fim do século XIX e começo do século XX



Emma Goldman, Alexander Berkman e o anarquismo do final do Século XIX e início do Século XX:

O Anarquismo é um movimento filosófico e social que se opõe ao controle social feito pelo Estado e também a todo tipo de dominação das pessoas. Ele engloba diversas correntes de pensamento. Durante cerca de 100 anos os anarquistas dominaram a cena política e os protestos sociais na Europa e também nos Estados Unidos. Os primeiros escritores, sociólogos, filósofos, e políticos que desenvolveram as primeiras ideias anarquistas, começaram os seus trabalhos na segunda metade do século XIX, e tiveram um papel muito importante no meio dos trabalhadores, sindicalistas, estudantes, libertários e intelectuais que agitavam as lutas políticas e populares de uma sociedade que estava surgindo por causa da Revolução Industrial.

Nesta época, a burguesia estava no comando do governo nos EUA e nos principais países da Europa, e o socialismo ainda estava criando a sua ideologia e iniciando as suas primeiras lutas trabalhistas e operárias. Escritores, sociólogos, filósofos e vários outros pioneiros famosos do anarquismo, tais como Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Malatesta, e muitos outros, ergueram os pilares de sustentação desta ideologia libertária, e agitaram a rica cena política desta sociedade industrial mundial, que se transformava muito rapidamente.
Foi neste contexto histórico, e dentro deste caldeirão social, que apareceu um casal de jovens anarquistas atuantes que muito contribuíram para que o anarquismo se difundisse no meio dos operários e do povo que iriam formar a sociedade mundial do começo do Século XX. Estamos falando de Emma Goldman e Alexander Berkman, dois jovens que nasceram na Lituânia e imigraram para os EUA, quando ainda eram adolescentes. Eles viveram uma vida conturbada, repleta de aventuras, viagens, lutas, prisões e sofrimentos, tudo em prol dos ideais anarquistas, conforme ficaremos sabendo a seguir.

Emma Goldman foi uma livre pensadora, uma mulher rebelde, uma ativista anarquista que escreveu vários livros e fez muitas palestras e discursos, para milhares de trabalhadores americanos e europeus, durante o final do século XIX.
Alexander Berkman foi um escritor e agitador anarquista, que nasceu na Lituânia e imigrou para os EUA em 1888, quase na mesma época da Revolta de Haymarket, um grande tumulto que aconteceu em Chicago, envolvendo sindicalistas, trabalhadores grevistas e vários policiais. Nesta revolta morreram várias pessoas, e o fato causou comoção em todo o país.
Emma Goldman nasceu em junho de 1869, na cidade de Kaunas, no interior da Lituânia, no seio de uma tradicional família de judeus ortodoxos, com costumes rígidos. Quando Emma tinha sete anos, sua família mudou-se para a Alemanha, onde ela completou os seus estudos do primário.
Família de Emma. Ela aparece em pé, no canto esquerdo

Seu pai era autoritário e de vez em quando lhe batia. Posteriormente, sua família mudou-se para a Rússia, para a cidade de São Petersburgo, capital da Rússia, onde ela passou a fazer os seus primeiros contatos com grupos de anarquistas. Seu pai era muito antiquado e não permitiu que ela estudasse no Ginásio, motivo pelo qual ela teve que se educar sozinha.
Foi nesta época que Emma leu o livro do escritor russo Nicolay Tchernyshevsky chamado “Que fazer?”. Este livro foi muito famoso por exercer influência sobre toda uma grande geração de jovens russos daquela época, inclusive Vladimir Lenin, que o leu cinco vezes num único verão! Também influenciou Karl Marx, que muitos afirmam que aprendeu russo somente para poder ler este livro! Emma se inspirou em Vera, uma das protagonistas deste livro, que abandona a sua família repressora para viver livremente e montar uma cooperativa de costura.
Livro "Que fazer?"

Assim, seguindo o exemplo da sua heroína Vera, Emma resolveu abandonar sua família e, em 1885, com apenas 16 anos, partiu para viver nos EUA, na cidade de Rochester, onde já morava Lena, a sua irmã casada.
Depois de um ano, os pais de Emma, mais o resto da sua família, também vieram morar em Rochester, no Estado de Nova Iorque, nas margens do Lago Ontario, para fugir do antissemitismo, que começava a crescer em São Petersburgo.
Em Rochester Emma começou a trabalhar na indústria têxtil, onde conheceu o seu primeiro marido, o jovem Jacob Kershner, com quem se casaria, quatro meses depois, para ir viver com a família dele. Mas, Jacob era impotente, e o casamento durou apenas cerca de um ano. Emma se separou, mas continuou legalmente casada com Kershner, somente para garantir a sua cidadania americana.
Infelizmente, Emma não foi mais aceita na sua família de Rochester, o que a obrigou a partir para tentar a sorte na capital do estado, na grande metrópole de Nova Iorque!
Emma na época em que conheceu Berkman

Ao chegar em Nova Iorque, Emma foi direto procurar os libertários e anarquistas que se reuniam no Café Sachs, onde ela conheceu, no ano de 1889, os dois homens que mudariam a sua vida para sempre: Alexander Berkman e Johann Most.
Alexander Berkman nasceu em Vilnius (Vilna), capital da Lituânia, em novembro de 1870, no seio de uma rica família de judeus, que também se mudaram depois para a cidade de São Petersburgo, capital da Rússia. Seu verdadeiro nome era Ovsei, e o seu apelido familiar era Sacha. Alexander completou os seus estudos do Ginásio na cidade de São Petersburgo, tendo se interessado pelos anarquistas na mesma época do atentado à bomba que matou o czar russo Alexandre II, em 1881.
O irmão da sua mãe, seu Tio Mark Nathanson, foi um dos fundadores da sociedade revolucionária secreta russa “Terra e Liberdade” e, mais tarde, foi condenado ao exílio pela Justiça Russa, por causa das suas atividades revolucionárias. 
Mark Natanson

Logo em seguida, quando Alexander tinha apenas 12 anos de idade, o seu pai faleceu. A família ficou sem o patriarca, passou por dificuldades, e eles tiveram que se mudar para Kovno, segunda maior cidade da Lituânia. 
Em Kovno, Alexander se juntou a um grupo de leitura e discussão de livros e obras revolucionárias. Ele também imprimia as suas ideias subversivas e antirreligiosas e as distribuía para os colegas da sua escola.
Quando Alexander completou 18 anos, sua mãe também faleceu, e o seu tio Nathan passou a ser o responsável por ele. Nesta época, Alexander leu o famoso livro de Nikolay Tchernyshevsky, chamado “Que fazer?”. Este livro influenciou muito os socialistas e anarquistas jovens daquela época. Alexander passou a se identificar com Rakhmetov, o personagem principal do livro, que se sacrifica em busca de um ideal. Este famoso livro foi traduzido para a língua portuguesa somente em 2015, por Angelo de Oliveira Segrillo, doutor em história e professor da Universidade de São Paulo (USP).
Alexander quando conheceu Emma


Quando seu irmão viajou para estudar na Alemanha, Alexander foi junto. Da Alemanha, Alexander imigrou para Nova Iorque, nos EUA. Quando chegou nos Estados Unidos, em 1888, Berkman não sabia falar inglês e não conhecia ninguém. Porém, logo fez amizade com os grupos de anarquistas que estavam contra o enforcamento dos condenados pelo atentado à bomba que ocorreu na Revolta de Haymarket, em maio de 1886.
A Revolta de Haymarket foi um trágico acontecimento, ocorrido na cidade de Chicago, em 04/05/1886, quando os trabalhadores e os anarco-sindicalistas, que lutavam pela jornada de trabalho de oito horas, entraram em choque com a polícia, e uma bomba foi lançada no meio da multidão. 
Ilustração da Revolta de Haymarket

A bomba explodiu matando um policial, alguns manifestantes, e ferindo várias pessoas! A polícia respondeu atirando contra os manifestantes, matando 11 trabalhadores e ferindo vários outros.
A culpa pelos acontecimentos em Chicago foi colocada em oito anarquistas, que foram presos no local e levados para julgamento. Cinco destes anarquista, mesmo sem provas, foram condenados à morte, mas, um deles suicidou-se antes da execução. Um dos quatro anarquistas enforcados foi Albert Parsons, fundador da Associação Internacional dos Trabalhadores.
Durante a segunda reunião da Associação Internacional dos Trabalhadores, que aconteceu em Paris, no ano de 1889, com delegações de 20 países, em homenagem às vítimas destes tristes acontecimentos, decidiu-se promulgar o dia 01 de Maio como sendo o dia internacional da luta pela jornada de oito horas de trabalho. Mais tarde, esta data foi adotada como o Dia do Trabalho em vários países do mundo, inclusive no Brasil.
Enforcamento dos mártires de Chicago

Alexande Berkman também ingressou no primeiro grupo de anarquistas judeus dos EUA, chamado “Pioneiros da Liberdade”, e que muito ajudou na formação dos primeiros sindicatos de trabalhadores judeus de Nova Iorque. Alexander também passou a trabalhar como tipógrafo no jornal do orador e anarquista Johann Most. Most era um propagandista alemão que defendia a ideia da propaganda anarquista pela ação, defendendo ações violentas contra políticos e também dirigentes radicais das empresas capitalistas!
Alexander conheceu Emma no Café Sachs, de Nova Iorque, no ano de 1889, quando ele tinha apenas 19 anos. Eles trocaram ideias, apaixonaram-se e ficaram juntos por quase toda a vida. Eles ficaram impressionados pelo fato de ambos serem judeus da Lituânia, e de ambos terem lido o mesmo livro, do escritor russo Tchernyshevsky.

Alexander Berkman apresentou Emma para o conferencista Johann Most, que lhe ensinou a arte da oratória e como discursar em público. Inclusive, Emma e Alexander moraram juntos, por algum tempo, numa comunidade rural em Woodstock, no Estado de Illinois. Emma costumava chamar Alexander de Sascha, seu apelido de infância.
Tudo ia muito bem para o jovem casal apaixonado até que eles resolveram se mudar novamente para o Estado de Massachusetts. Em 1892 Emma, Alexander e um primo seu, chamado Aronstam, mudaram-se para a cidade de Worcester, em Massachusetts, para trabalhar em uma lanchonete.
Em julho de 1892 aconteceu uma greve conturbada, na Companhia de Aço Carnegie, Pensilvânia, que atraiu a atenção nacional quando o seu gerente antissindicalista, Henry Clay Frick, resolveu reprimir violentamente a greve dos trabalhadores. Houve um tiroteio durante 11 horas e, no final, quatro guardas e nove grevistas foram mortos!
Ilustração mostra Berkman entrando no escritório de Frick

Esta pareceu ser a oportunidade que Emma e Alexander estavam esperando para fazer propaganda da causa anarquista e fazer os trabalhadores se revoltarem contra o Sistema Capitalista. Resolveram então assassinar o gerente da empresa, Henry Clay Frick. Para realizar o atentado, Berkmam arranjou um revolver e viajou, junto com seu primo Aronstam, para Pittsburgh. Emma insistiu em participar do ato, mas Berkman não permitiu.
No dia 23 de julho de 1892 Alexander invadiu o escritório de Frick e, não só lhe desferiu dois tiros, como ainda lhe deu mais três facadas!
Frick ficou apenas ferido, mas não morreu. Muitos anarquistas dos EUA condenaram o atentado, que falhou ao inspirar as massas para um levante popular. Aronstam, que ainda não havia sido preso, assustou-se com a repercussão das notícias e decidiu fugir para Nova Iorque.
Berkman trabalhando no Mother Earth em 1912

Os anarquista dos EUA estavam divididos quanto à validade do ato de propaganda de Alexander, enquanto alguns se colocaram a seu favor, outros ficaram contra, como o seu antigo patrão Johann Most, que condenou a tentativa de assassinato, mesmo porque, Henry Frick não havia sido morto e o objetivo do ato não tinha sido alcançado.
Berkman ficou preso durante dois meses, antes do seu julgamento, e Emma o visitou na prisão com uma identidade falsa. Durante o seu julgamento, Berkman dispensou o advogado, mas requisitou o auxilio de um tradutor de alemão, pois ainda falava mal o idioma inglês. No final do julgamento, ele foi condenado a 22 anos de cadeia, dos quais completou 14 anos de reclusão, saindo apenas em 1906, debilitado e com 36 anos de idade.
Durante o seu tempo na prisão, Berkman escreveu o livro “Memórias de um Anarquista Aprisionado”. Sua companheira, Emma Goldmam, que estava com apenas 23 anos de idade, quando ele foi preso, o visitou diversas vezes.
Emma Goldman

Nos dez anos que se seguiram Emma resolveu fazer várias palestras, viajando pelos EUA, e aproveitando o seu dom da retórica, que ela havia aperfeiçoado com o conferencista Johann Most.
O “Pânico de 1893” foi uma grave depressão econômica, que aconteceu nos EUA, e que levou à uma série de falências de bancos. A taxa de desemprego alcançou 20%. Emma aproveitou esta ocasião para fazer uma famosa palestra em Nova Iorque, onde discursou na grande Praça Union, (Union Square, em Manhattan), para uma plateia com mais de 3.000 trabalhadores! Nesta palestra ficou famosa a sua frase: “Manifestem-se diante dos palácios dos ricos, e exijam emprego. Se eles não lhe derem emprego, exijam pão. Se eles lhe negarem ambos, tomem o pão!”.
Uma semana depois deste discurso, Emma foi presa e acusada de incitar uma insurreição! Ela foi sentenciada a um ano de prisão na Penitenciária da Ilha Blackweel, onde acabou pegando um forte reumatismo. Mas, também aproveitou este tempo para estudar enfermagem e ler alguns livros de escritores americanos famosos, tais como Ralph Emerson, Henry Thoreau, Walt Whitman e John Stuart Mill.
Emma discursando para centenas de pessoas em Nova Iorque

Quando Emma foi solta, em 1894, uma multidão de pessoas veio recepcioná-la, e ela foi convidada para várias entrevistas e conferências. Para conseguir dinheiro Emma decidiu se dedicar à profissão de enfermeira, que havia começado a estudar na prisão. Resolveu então viajar de navio para estudar enfermagem na Europa, onde também poderia realizar algumas conferências.
Na Europa, Emma entrou em contato com outros anarquista famosos, como Errico Malatesta, Louise Michel e Piotor Kropotkin. Conseguiu também receber dois certificados de enfermagem em Viena, na Áustria. Retornou depois para os Estados Unidos.
Hippolyte Havel

Nos Estados Unidos, Emma dedicou-se à sua profissão de enfermeira e também às palestras pelos EUA, como oradora libertária. Viajou depois, em novembro de 1899, para a Inglaterra, onde encontrou-se com o anarquista inglês Hippolyte Havel, com quem teve um relacionamento amoroso. Juntos viajaram para a França, onde ajudaram na organização do famoso Congresso Anarquista Internacional de Paris. Emma e Havel voltaram juntos para os EUA, onde Havel foi militante anarquista e também editor da revista Mother Earth.
Depois da virada do século, em 06 de setembro de 1901, na cidade de Buffalo, um anarquista chamado Leon Czolgosg, atirou duas vezes no Presidente dos Estados Unidos, William Mc Kinley, que morreu oito dias depois. Ao ser preso, Leon disse que ficou inspirado a agir assim depois que assistiu uma palestra da conferencista Emma Goldman, em Nova Iorque. A polícia acusou Emma de cumplicidade e a manteve presa por duas semanas, mesmo sem as provas. Emma foi solta depois, mas Leon foi julgado e executado.
Gravura mostra Mc Kinley sendo assassinado por Leon

Após estes acontecimentos Emma manteve-se reclusa, dedicando-se unicamente à sua profissão de enfermeira. Decidiu voltar à ativa em 1903 depois que o Congresso Americano aprovou os Atos de Exclusão dos Anarquistas, que impediam a entrada nos EUA de anarquistas imigrantes e permitia expulsar os anarquistas e comunistas imigrantes para os seus países de origem! Emma efetuou algumas palestras contra estes atos do Congresso, dizendo que eles feriam a Lei de Liberdade de Expressão.
Em 1906, Alexander Berkman foi solto, mas estava fisicamente abalado e sofria de depressão. Junto com Emma, decidiram fundar a Revista Mother Earth, (Mãe Terra), que durante muito tempo foi um grande referencial para os anarquistas e livre pensadores de todo os EUA.
Primeira edição do Mother Earth

O primeiro número desta revista saiu em março de 1906, com uma tiragem de 3.000 cópias. Esta importante revista continuou a ser publicada mensalmente até agosto de 1917. Grandes pensadores, filósofos e escritores anarquistas e libertários contribuíram, com seus artigos, para o sucesso desta publicação, como por exemplo Leo Tolstoy, Will Durant, Ricardo Flores, Maxim Gorki, Piotr Kropotkin, Errico Malatesta, Eugene O’ Neill (Premio Nobel de Literatura de 1936), Elisée Reclus, Rudolf Rocker, Margaret Sanger, Max Nettlau, Leonard Dalton, e também o próprio Hippolite Havel, que era redator deste importante periódico. Naturalmente, os artigos escritos por Emma e Alexander Berkman tinham um bom destaque nestas publicações, contribuindo assim para aumentar a sua fama no meio libertário e anarquista dos EUA.
Mas, o relacionamento entre Emma e Alexander já não ia mais tão bem. Alexander estava começando a se interessar por outras mulheres mais jovens e Emma já não o amava mais. Isto não os impediu de ficarem juntos pelo resto da vida, existindo ainda uma grande amizade e colaboração entre ambos, afinal de contas, eles compartilhavam das mesmas ideias e pensamentos anarquistas.
Em 1910 e 1911 Emma lançou mais três livros chamados “Anarquismo e outros ensaios”, “Casamento e Amor” e “Psicologia da Violência Policial”. Numa época em que ainda não existia a televisão, a leitura era uma das distrações mais populares, e estes livros tiveram um relativo sucesso de vendas.
Escola Moderna de Nova Iorque em 1912

Enquanto isso, Berkman estava começando a sofrer de depressão, com tendências suicidas, que apareceram desde quando ele começou a cumprir a sua pena na prisão. Berkman também se interessou por uma jovem anarquista chamada Becky Edelsohn. Ele também ajudou a criar a Escola Moderna de Nova Iorque, que incentivava o pensamento crítico e independente dos alunos, e praticava a pedagogia libertária, inventada em Barcelona pelo anarquista espanhol Francisco Ferrer. Esta escola também serviu de local de encontro para anarquista e libertários. Em 1912 Berkman escreveu um livro chamado “Memórias de um anarquista”.
Em 20 de abril de 1914 ocorreu o famoso Massacre de Ludlow, quando a Guarda Nacional do Estado do Colorado reprimiu duramente os grevistas, mineradores de carvão, causando a morte de 26 pessoas, entre elas 11 crianças. Uma das empresas envolvidas pertencia à famosa Família Rockefeller, composta por milionários ricos e politicamente influentes. 

Berkman liderou uma série de protestos contra John Rockfeller Junior, que resultaram na prisão e espancamento de vários anarquistas.
No final do ano de 1915 Berkman mudou-se para São Francisco, na Califórnia, onde fundou a sua própria revista anarquista chamada “The Blast”, que funcionou durante 18 meses.
No dia 22 de julho de 1916 ocorreu um atentado à bomba num desfile, na cidade de São Francisco, que marcava os preparativos para a entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial. Neste atentado, conhecido como “Atentado de Preparedness Day”, morreram 10 pessoas e 40 ficaram feridas! Berkman foi detido, mas, como não existiam provas contra ele, foi solto logo depois.
Em 1917, com a entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial, o Congresso aprovou o Ato de Alistamento Militar Seletivo, que tornava o alistamento obrigatório para todos os homens entre 21 e 30 anos.
Emma durante a Primeira Guerra Mundial

Berkman decidiu voltar para Nova Iorque onde, ao lado de Emma Goldman, organizou a Liga Anti-Alistamento, dizendo que “os anarquistas estavam contra, porque eram antimilitaristas e não apoiavam as guerras preparadas pelos governos capitalistas”.
Em 15 de julho de 1917 Emma e Berkman foram presos, em seu escritório de Nova Iorque, quando a polícia encontrou um grande material de propaganda anarquista. A dupla foi processada por causa da sua militância contra o Alistamento Obrigatório e, com base na Lei de Espionagem, Berkman foi condenado a dois anos de prisão! Berkman cumpriu sua pena na Penitenciária de Atlanta.
Quanto a Emma Goldman, ela também foi condenada a dois anos de prisão, e cumpriu a sua pena na Penitenciária Estadual do Missouri. Goldman foi solta em 27 de setembro de 1919.
A Divisão de Inteligência do Departamento de Justiça Americano, comandada por Edgar Hoover, estava prendendo os anarquistas e radicais, porque o governo estava com medo da ameaça comunista!
John Edgar Hoover foi o criador do FBI

Em 1919, o presidente americano Woodrow Wilson nomeou Mitchel Palmer como seu Procurador Geral. Palmer recrutou John Edgar Hoover como seu assistente e, juntos, eles lançaram uma grande campanha nacional contra as organizações radicais e de esquerda.
Em 07 de novembro de 1919, mais de 10.000 anarquistas e comunistas foram presos sob a acusação de que estariam planejando um golpe para derrubar o Governo Americano!
Berkman, Emma Goldman, e mais uma amiga anarquista, chamada Mollie Steimer, foram presos juntos. Os três foram acusados de simpatizantes da causa bolchevista e, juntamente com mais 245 outras pessoas, foram deportados para a Rússia!
Ao chegarem na Rússia, Emma e Berkman foram residir na cidade de São Petersburgo, onde já haviam morado durante a sua adolescência. Num primeiro momento, eles se maravilharam com as pessoas e os ideais que fizeram a Revolução Bolchevista de 1917, mas, com o passar do tempo, eles foram vendo que a realidade era bem diferente da teoria.
Lenin falando para o povo russo durante a Revolução Bolchevista

Emma e Berkman viajaram pelo interior do país, onde encontraram repressão, corrupção, má administração e os operários trabalhando em condições severas. Isto fez com que eles percebessem que uma elite de políticos e funcionários públicos havia se apoderado da máquina estatal na Rússia para o seu próprio benefício. Começaram então a criticar o sistema político do país.
No final de 1920, eles tiveram um encontro reservado com Vladimir Lenin, que lhes assegurou que a supressão das liberdades de imprensa era plenamente necessária e justificável, por causa do período revolucionário em que eles estavam vivendo.

Em fevereiro de 1921 morreu o grande teórico do anarquismo Piotr Kropotkin, na cidade de Dimitrov, situada ao norte de Moscou. Milhares de anarquistas da Rússia, e também alguns de outros países, se dirigiram a Dimitrov, para dar adeus ao grande libertário. Este foi o último grande encontro de anarquistas da Rússia, depois do qual, eles foram perseguidos pelas forças de repressão do governo soviético.
Em março de 1921, algumas greves aconteceram na cidade de São Petersburgo e se ampliaram para a cidade portuária de Kronstadt. Os marinheiros da cidade de Kronstadt se amotinaram e, entre suas reivindicações, estava a inclusão dos grupos anarquistas no Governo Russo. 
Marinheiros amotinados de Kronstadt exigindo reformas políticas

Houve uma terrível batalha entre manifestantes, marinheiros e as tropas do governo, na qual milhares de pessoas foram mortas e presas. Isto serviu para que Emma e Berkman se desiludissem e percebessem que já era hora de abandonar aquele país conturbado e se mudar para Berlin, na Alemanha.
Na Alemanha, Emma foi contratada pelo jornal New York World, pertencente ao jornalista húngaro Joseph Pulitzer, para escrever alguns artigos, que depois se transformaram em dois livros: “Minha desilusão na Rússia”, lançado em 1923, e o livro “Minha nova desilusão na Rússia”, lançado em 1924.
Mollie Steimer, a amiga anarquista deles, veio se juntar ao grupo em setembro de 1924, depois de ter sido deportada da Rússia por causa dos seus protestos. Steimer, ao chegar em Berlim, afirmou que “na Rússia uma grande revolução popular foi usurpada por uma elite política implacável”.
Anarquista escocês James Colton


Em setembro de 1924 Emma resolve se mudar para Londres, onde se casou com o anarquista escocês James Colton, que se ofereceu para ajudá-la a conseguir a cidadania britânica. Ela aproveitou a sua cidadania britânica para conseguir viajar depois para a França e o Canadá. 
Em janeiro de 1925 Berkman publica o seu livro “O Mito Bolchevique”, onde nele conta as suas experiências na Rússia, depois que foi deportado dos EUA. O livro narra o seu entusiasmo inicial com a Revolução de Outubro de 1917, e a sua posterior desilusão. Em 1925 Berkman se muda da Alemanha para a França.
Mais tarde Berkman viajou para o Canadá, em 1927, para acompanhar de perto as repercussões do caso dos anarquistas italianos Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, presos na cidade de Boston. Eles foram condenados à morte e eletrocutados em agosto de 1927.
Anarquistas italianos Sacco e Vansetti eletrocutados em 1927 nos EUA
Quanto a Emma, em 1928 ela recebeu uma quantia de 4.000 dólares para escrever a sua autobiografia. Alugou então uma casa em Saint-Tropez, no litoral da França, onde passou dois anos escrevendo as suas memórias! Seu livro recebeu o nome de “Vivendo a minha vida”, e foi lançado em dois volumes.
Emma escrevendo a sua autobiografia na França

Em 1929 Alexander Berkman lançou o seu famoso livro “ABC do Anarquismo Comunista”, sob o patrocínio da Federação Anarquista Judaica de Nova Iorque, onde ele narra, de maneira simples, os detalhes do anarco-comunismo.
No ano de 1930 a saúde de Berkman começa a piorar, por causa de problemas em sua próstata. Ele procurou trabalhar apenas como editor e tradutor. Em fevereiro e março de 1936 ele é submetido a duas operações da próstata, e ficou na cidade de Nice, na França, aos cuidados da sua então companheira Emmy Eckstein. Sentindo muitas dores, ele resolveu cometer suicídio com um revólver, mas, não morreu de imediato. Ele ainda foi levado para o hospital, onde morreu na noite de 27 de julho de 1936.
Berkman no fim da vida, junto com Emma, em Nice

Emma Goldman, que também estava na França, ainda viajou para Nice, onde providenciou o funeral de Berkman. Ele morreu alguns dias antes de ver os princípios anarquistas sendo postos em prática, na Revolução Civil Espanhola de 1936.
Quanto à Emma, que agora já estava com 67 anos de idade, foi viver em Toronto, no Canadá, na região do Lago Ontário, perto da cidade de Rochester, onde ficava a antiga casa da sua família, no território americano.
Em 1934 o famoso escritor chinês Ba Jin escreveu seu livro “O clamor do meu espírito”, e dedicou-o à Emma Goldman, a qual qualificou como sendo sua mãe espiritual. Eles estavam trocando cartas já fazia um bom tempo.
Em julho de 1936 teve início a Revolução Espanhola, onde os anarquistas espanhóis lutaram contra as forças fascistas. O anarquismo se espalhou entre os operários da região da Catalunha à partir de 1840. A Confederação Nacional dos Trabalhadores (CNT) tinha uma tendência anarcossindicalista, pois acreditava na auto-gestão das empresas por parte dos trabalhadores. Na Espanha, nas regiões da Catalunha e Aragão, estava sendo implantada uma economia anarquista solidária!
Em 1936, Emma foi convidada a ir para Barcelona pela Confederação Nacional do Trabalho (CNT) e pela Federação Anarquista Ibérica (FAI). Pela primeira vez na vida ela pode conviver em uma comunidade anarquista administrada e direcionada para os anarquistas.
Emma Goldman entre os anarquistas da Espanha, em 1936
Na Espanha Emma foi muito bem recepcionada, e começou a escrever semanalmente o Boletim Informativo da CNT-FAI. Na Espanha existiam dois grupos políticos principais que competiam entre si: os falangistas, que apoiavam o nazi-fascismo, e eram defendidos pela igreja, grandes latifundiários, militares de direita; e a frente popular, que era composta pelos comunistas, sindicalistas, anarquistas e socialistas. 
Cena do filme "Terra e Liberdade", de 1995, sobre a Guerra Civil na Espanha

Com a renúncia do Rei Afonso XIII, foi proclamada a República dos Trabalhadores, que tinha uma grande quantidade de anarquistas, e foi duramente combatida pelo exército fascista de Franco, com a ajuda militar de Hitler e Mussolini.
Goldman começou a se preocupar com o futuro do anarquismo na Espanha quando a CNT-FAI começou a fazer um governo de coalizão com as forças comunistas, em 1937, em prol da luta contra o fascismo. A Rússia se recusou a continuar enviando armas para os anarquistas da Espanha, e a França fechou as suas fronteiras, para os anarquistas não procurarem abrigo no território francês. Os britânicos e os americanos fizeram vistas grossas para o terrível massacre que aconteceu no final da guerra.
General Franco e o seu amigo nazista Hitler

Nesta época, Emma retornou para Londres, e começou a escrever para o periódico “A Espanha e o Mundo”, que era focado na Guerra Civil. Emma protestou quando as forças comunistas também atacaram as tropas anarquistas e algumas comunidades. Mais tarde as forças nacionalistas do General Franco declararam sua vitória em 1939. Assim, ela sentiu-se desapontada com a humanidade e solitária, o que a fez abandonar tudo e voltar para o Canadá.
Quando completou 70 anos de idade o ex-secretário geral da CNT-FAI, Mariano Vásquez, enviou-lhe uma mensagem de agradecimento, pela sua contribuição na Guerra Civil Espanhola e nomeando-a “nossa mãe espiritual”.
Quando a Segunda Guerra começou na Europa, Emma reiterou sua oposição aos governos totalitários de Hitler, Stalin, Mussolini e Franco, mas, também disse que: “não poderia apoiar uma guerra contra eles feita por democracias que eram, na verdade, regimes fascistas disfarçados”.
No dia 17 de fevereiro de 1940 Emma sofreu um derrame, que paralisou todo o seu lado esquerdo do corpo, deixando-a impedida de falar. No dia 08 de maio ela sofreu mais um sério derrame, e faleceu seis dias depois, na cidade de Toronto, no Canadá.

Frente à pressão da opinião pública, o Serviço de Imigração Americano permitiu que o seu corpo fosse trazido para os Estados Unidos, onde foi velado e enterrado, no mesmo cemitério de Chicago em que se encontravam os corpos dos anarquistas mortos na Revolta de Haymarket.
Emma Goldman contribuiu para diversos campos da filosofia política moderna e influenciou alguns escritores anarquistas do seu tempo. Ela acreditava que o movimento em busca da libertação humana precisava ser levado adiante por pessoas defensoras da liberdade. Ela defendia o direito de todos terem acesso às coisas radiantes e belas!
Anarcofeminismo

Emma era uma ateia, pois considerava a religião um instrumento de dominação popular, e culpava o Cristianismo pela perpetuação de uma sociedade escravista. Também acreditava que o Sistema Econômico Capitalista era inimigo da liberdade humana. Ela defendia a emancipação feminina, o amor livre, os métodos contraceptivos e foi uma das fundadoras do anarcofeminismo. Combateu a perseguição aos homossexuais e defendia o amor entre eles.
Emma enxergava o Estado como um meio de controle e dominação do povo. Acreditava que o voto gerava uma ilusão de participação do povo na política, e que as lutas sociais tinham que ser feitas através das greves, protestos e da ação direta contra as autoridades políticas imorais que cometiam abusos.

De qualquer forma, tanto Emma Goldman como Alexander Berkman, foram pessoas atuantes e participativas, que viveram intensamente as suas vidas, e deixaram os seus nomes gravados na história do anarquismo mundial.


Anarquistas ilustres da história mundial



terça-feira, 1 de agosto de 2017

A mãe de Moisés foi a maior rainha do Egito


Hatshepsut, a maior rainha do Egito

Hatshepsut foi a maior rainha-faraó que o Egito já teve. Foi uma ótima administradora do reino, promoveu a unificação do Baixo com o Alto Egito, construiu grandes obras e templos, organizou uma grande expedição comercial para a distante Eritreia, e também foi a mãe adotiva de Moisés.
Faraó Hatshepsut oferecendo comida ao Deus Órus
Ela era a filha mais velha do rei Tutmés I e da rainha Amósis. Sua avó foi Ahhotep, uma conhecida regente do Egito. Nasceu na cidade de Tebas, muito provavelmente em 1.505 a.C. e faleceu em 1.457 a.C., com cerca de 49 anos de idade apenas.
Seu pai faleceu quando ela tinha apenas 24 anos de idade deixando o Egito para o seu filho Tutmés II, de quem ela era meia-irmã, e com o qual ela se casou, após a morte do pai. Naquela época os faraós desposavam as próprias irmãs, ou tias, a fim de manter e aumentar o seu prestígio, pois as mulheres da realeza tinham muitos direitos e privilégios Elas eram as cantoras do deus Amom-Rá, eram as esposas reais e as mães do faraó-deus!
O faraó Tutmés II não chegou a governar por muito tempo, pois faleceu poucos anos depois, deixando o reino para o seu filho bastardo Tutmés III, que ainda era uma criança pequena, com apenas 3 anos de idade. Assim, Hatshepsut passou a dirigir o Reino do Egito no lugar do seu enteado, assumindo as funções de regente.
Estátua de Hatshepsut
Na qualidade de esposa real de Tutmés II, ela assumiu o governo quando tinha apenas 28 anos de idade, em 1.476 a. C., dirigindo o império por cerca de 20 anos, até o ano de 1.457 a.C., durante um período no qual o Egito experimentou vários anos de prosperidade e paz interna.
Ela também teve o apoio dos sacerdotes do Deus Amon-Rá porque, como regente, ela fazia muitas doações e favores para o clero. Assumiu o governo do Egito adotando o nome de MAATKARE e dizendo ser filha direta do Deus Amon, sendo a primeira faraó do reino que teve a ideia de usar a teogamia para legitimar o seu poder. Para legitimar ainda mais o seu poder, Hatshetpsut passou a usar uma barba postiça, tanga curta e uma cauda de touro, assumindo uma aparência quase masculina.
Durante os primeiros 6 anos da sua regência Hatshepsut passou a consolidar o seu poder e, a partir do sétimo ano, proclamou-se rainha-faraó juntamente com o seu enteado Tutmés III. Assim, o Egito passou a ter dois reis que governavam juntos. Enquanto as funções eclesiásticas, o controle do clero e as ações bélicas externas iam ficando cada vez mais com Tutmés III, ela se encarregava mais das funções administrativas internas do país e à construção de grandes obras, como as obras feitas no Templo de Amon, em Karnak, e as construções do seu Templo Funerário, em Deir el-Bahari, perto de da cidade de Tebas, no Vale do Rio Nilo.
Gravura retratando a provável aparência de Senenmut e Hatshepsut

Foi por esta época que entrou em cena a figura de um plebeu letrado, camareiro e professor de Neferure, filha da rainha, que era chamado Senenmut. Com o passar do tempo Senenmut foi se tornando conselheiro da rainha Hatshepsut e também o seu amante, segundo afirmam historiadores mais radicais. Alguns ainda afirmam que ele lutou nos exércitos de Tutmés I, pai da rainha Hatshepsut, e que talvez ele fosse na verdade o pai da sua filha Neferure.
Senenmut tornou-se uma das pessoas mais importantes da administração egípcia, foi o arquiteto do templo de Djeser-Djeseru, e ocupou o cargo de Supervisor das Obras do Egito. O Templo de Djeser-Djeseru, situado na região de Del el-Bahari, perto de Tebas, era magnífico pela sua elegância, harmonia e pelos jardins em sua volta.
Templo de Djeser-Djeseru em Del el-Bahari, perto de Tebas

Este templo era conhecido como “o mais santo dos santos”, ou, “o sublime dos sublimes”. Senenmute deixou mais de 20 estátuas suas nos monumentos que projetou para a rainha, algumas delas junto com a sua tutora Neferure. Deixou também algumas imagens suas, inclusive uma segurando uma corda de topógrafo. Como arquiteto também construiu em Karnak, onde deixou dois grandes obeliscos dedicados à rainha-faraó Hatshepsut.
Durante o nono ano do seu reinado, Hatshepsut sentiu vontade de enviar uma expedição comercial para a distante Terra de Punt, que muito provavelmente ficava na região da Eritréia, ou Djibuti, países africanos situados no litoral do Mar Vermelho.
Provável localização da Terra de Punt

Para isto Hatshepsut organizou uma grande expedição que durou cerca de 3 anos! Naquela época a Terra de Punt era uma região rica, sendo conhecida como “a terra do ouro”.
Hatshepsut mandou construir 5 navios de madeira grandes e adequados para o transporte de mercadorias. Estes navios cruzaram o Mar Vermelho e aportaram em Punt, um reino que ficava perto do Chifre da África. Foram recebidos pelo Rei de Punt, a "Terra do Ouro", e por sua mulher, que era bem obesa, segundo mostram os desenhos gravados nas paredes do Templo de Djeser-Djeseru.

Navio egípcio da expedição sendo carregado na Terra de Punt
Depois de serem carregados com várias mercadorias, tais como ouro, marfim, ébano, incenso, mirra, perfumes, resinas, mudas de plantas, especiarias e animais exóticos (tais como macacos e leopardos), estes navios regressaram para o Egito.

As mudas das árvores de incenso, trazidas pela expedição, foram plantadas nos jardins existentes na frente do Templo de Djeser-Djeseru. Algumas imagens contando os detalhes desta longa expedição foram gravadas nos murais do templo por ordem de Senenmude, o arquiteto da rainha, e podem ser vistas até hoje.
Templos da região de Del el-Bahari situados em frente ao Templo de Karnak
Durante os primeiros 10 anos do seu reinado, a atividade militar exterior do Egito foi mínima, e isto ocasionou a perda de alguns territórios ao norte, no Oriente Próximo, e algumas revoltas ao sul, na fronteira com a Núbia. Isto obrigou Hatshepsut a exercer algumas atividades militares no sul do Egito para apaziguar as rebeliões e garantir os territórios que haviam sido conquistados. Também efetuou algumas campanhas militares contra a Síria. 
Segundo conta a Bíblia a filha do faraó encontrou o cesto com Moisés

Parece que a rainha também efetuou algumas alianças militares com os povos hititas e cananeus do Oriente Próximo, para evitar uma guerra desnecessária e custosa. Mais tarde, o Rei-Faraó Tutmés III, que foi sendo preparado para a arte da guerra, liderou algumas importantes campanhas militares contra os povos do norte que queriam invadir o Egito.
De acordo com a Bíblia, Moisés, o líder religioso dos Hebreus que libertou o povo israelita da escravidão no Egito, foi salvo das águas por Hatshepsut, a filha do Faraó Tutmés I, que depois o adotou, pois não tinha nenhum filho homem. Moisés viveu no Egito durante 40 anos, gozando de um grande prestígio na corte do Egito.
Moises e a sarça ardente do alto do Monte Horebe
Depois de ter matado um feitor egípcio, Moisés partiu para seu exílio no Deserto do Sinai, onde se casou com Zípora e teve dois filhos. Quando estava perto de completar 80 anos, Moisés subiu ao Monte Horebe, onde conversou com uma sarça ardente que era a personificação de Deus. Deus então o convocou para voltar ao Egito e libertar o seu povo do cativeiro, tarefa que ele realizou com louvor.
Quase no final do governo de Hatshepsut os povos que habitavam o norte do Egito resolveram se revoltar e ameaçar o seu império. Assim, os hititas, os palestinos, os cananeus e os sírios resolveram unir forças e, juntamente com as forças militares das importantes cidades de Kadesh e Megido, enfrentar os egípcios. Tutmés III, que já era um homem adulto e preparado, resolveu se antecipar aos atacantes, e desferiu um ataque mortal contra as tropas inimigas vencendo-os na Batalha de Megido, em abril de 1.457 a.C., obrigando-os a fugir e se esconder na cidade de Megido. A cidade de Megido ficou sitiada durante sete meses, até as tropas inimigas se renderem.
Tutmés III, à esquerda,atacando a biga do Rei de Kadesh

Estas batalhas deram força para o Faraó Tutmés III, que assim resolveu se revoltar contra o poder da rainha Hatshepsut, pois pretendia governar sozinho. Uma das sua primeiras providências foi tratar de dar um sumiço em Senenmut, braço direito da sua tia, em 1.458 a.C. Assim, Senenmut caiu em desgraça, foi afastado das suas funções e, deste esta época, ninguém mais teve notícias dele. Sabe-se apenas que ele não foi enterrado no mausoléu que construiu, perto do templo da rainha, que ele havia projetado. Quanto à rainha Hatshepsut, parece que seu poder ficou mais fraco, depois do afastamento do seu arquiteto. Ela também ficou doente, contraiu um câncer, e morreu em 1.457 a.C.
Múmia da Rainha Hatshepsut, a mãe adotiva de Moisés

Em junho de 2007, o Discovery Channel e o egiptólogo Dr. Zahi Howass anunciaram a identificação positiva da múmia da Rainha Hatshapsut, ou Maatkare. Ela foi encontrada inicialmente pelo arqueólogo Howard Carter quando achou duas múmias femininas durante as suas pesquisas no túmulo da enfermeira de Hatshepsut.
Uma destas duas múmias era a múmia da mãe adotiva de Moisés, e a causa provável da sua morte foi um câncer ósseo, que a matou aos 49 anos de idade. A identificação da múmia da rainha Hatshepsut deu origem a um documentário chamado "Segredos da rainha perdida do Egito", com mais de uma hora e meia de duração.
Após a morte da rainha, Tutmés subiu ao trono e logo procurou apagar a imagem de Hatshepsut da história, destruiu alguns dos templos construídos por ela, e mandou apagar as imagens da rainha de alguns altos-relevos das paredes dos templos.
Neste pequeno, mas interessante, vídeo abaixo podemos entender o porque desta tentativa para apagar da história a lembrança desta grande rainha do Egito:



Assim, o Faraó Tutmés III ficou livre para governar o Egito e expandir as suas fronteiras. Tutmés III é considerado o maior faraó guerreiro do Antigo Egito e aquele que levou para mais longe as fronteiras do Reino do Egito.

domingo, 23 de abril de 2017

A terrível explosão que deu origem à lenda da Atlântida e do Dilúvio Universal


A terrível explosão do Vulcão de Thera:
Segundo afirmam alguns geólogos, a explosão na antiga Ilha de Thera, no Mar Mediterrâneo, ou a Erupção Minóica do Mar Egeu, foi a mais forte explosão que já aconteceu no Planeta Terra. Calcula-se que a explosão do grande vulcão que existia na Ilha de Thera, ocorrida aproximadamente no ano de 1.645 antes de Cristo, tenha sido quatro vezes maior do que aquela que ocorreu com o vulcão de Krakatoa, em 1883!
A grande explosão na Ilha de Thera abalou todo o Mar Egeu
Esta enorme explosão criou uma grande coluna de cinzas e fuligem que afetou culturas agrícolas até na China, na Fenícia e no Egito. Desintegrou o solo e o subsolo da Ilha de Thera, transformando-a  num arquipélago de cinco ilhas, conhecidas hoje como Arquipélago de Santorini, (Santa Irene, em italiano). 
Sua coluna de fumaça chegou até a estratosfera, e a onda sísmica criou várias ondas marinhas enormes e um tsunami que atingiu mais de 100 metros de altura. O tsunami criado pela explosão arrasou o litoral da Ilha de Creta, situado a cerca de 110 quilômetros de distância, destruindo parte da sua frota naval e contribuindo para a fase de decadência da Civilização Cretense.
As ondas sísmicas, a partir de Thera, chegaram até o Oriente Médio
Também provocou ondas enormes que invadiram o Delta do Rio Nilo e arrasaram com as culturas egípcias daquela rica região, causando fome e revoltas populares. A rica cidade portuária de Acrotíri, que ficava em Thera, foi totalmente destruída e a navegação pelo Mar Egeu ficou seriamente prejudicada durante muito tempo. Parecia que o mundo ia se acabar! Milhares de pessoas morreram, e o céu ficou totalmente escuro durante vários dias.
Esta terrível explosão do vulcão na Ilha de Thera não poderia mesmo ser apagada da memória e do imaginário popular dos povos da Idade do Bronze Grego, e que viviam nos litorais ao longo do Mar Mediterrâneo. Assim, começaram a aparecer algumas lendas antigas que contribuíram para enriquecer a Mitologia Grega, como a Lenda do Grande Dilúvio de Deucalião e a Lenda da Destruição da Atlântida.

Situação da ilha 3.600 anos depois:
A explosão vulcânica na ilha de Thera foi tão grande que explodiu e arrancou a parte central da ilha, mandando-a para o espaço, e formou uma imensa cratera que foi engolida pelas águas do Mar Egeu. Ainda hoje, 3.600 anos depois, podemos ver como ficou aquela região e as porções de terra que restaram da ilha.
Arquipélago de Santorini e a posição atual das duas Ilhas Kameni.
Atualmente, o turismo tomou conta daquele arquipélago formado por duas ilhas maiores e três pequenas ilhas, servindo como principal fonte de renda para os atuais moradores gregos. Excursões programadas levam os turistas para conhecer a cratera do vulcão, chamada de Nova Ilha Kammeni, e que vem crescendo cada vez mais, nos últimos 400 anos, uma vez que a atividade geológica do vulcão ainda continua! Grandes navios de turismo trazem pessoas de várias partes do mundo e, na borda daquela imensa cratera, foram construídas várias casas e pousadas para contemplação da Ilha Kammeni, situada no meio da cratera do antigo vulcão da Ilha de Thera.
Como a atividade do vulcão ainda não cessou, e chegou a cobrir de lava várias casas e um pequeno porto que existia na Ilha Kammeni, o Governo da Grécia proibiu a presença de moradores naquela ilha.
Igreja em Santorini e a Ilha de Kameni no meio da cratera.
Atualmente, o arquipélago chama-se Ilha de Santorini, e também possui um aeroporto para receber os turistas. Navios e escunas levam os excursionistas para percorrer a pé, ou no lombo de burros, a trilha que leva até a cratera ativa do vulcão que, de vez em quando, solta lavas e colunas de fumaça.
No litoral da Ilha Kammeni também existem fontes termais, no fundo do mar, que aquecem a água e permitem o banho coletivo dos turistas. Existe até uma pequena praia, na base da encosta da montanha, chamada de Praia Vermelha, por causa da coloração das suas rochas.

Origem de várias lendas:
As erupções do vulcão duraram cerca de três dias, e também foram acompanhadas por um grande terremoto e vários tremores de terra. As ondas sísmicas se espalharam por quase toda a região do Mar Mediterrâneo, afetando os moradores dos litorais da Anatólia, Grécia, Fenícia e Egito. Os tsunamis varreram a costa de várias ilhas do Arquipélago das Ilhas Cíclades, situadas ao norte do Mar Egeu.
Região do Mar Egeu onde ficam as Ilhas Cíclades.
Os moradores destas ilhas começaram então a contar histórias interessantes sobre estes fatos, que depois viraram lendas e foram incorporadas à lista de histórias da Mitologia Grega. As duas lendas mais famosas dizem respeito à Atlântida e ao Grande Dilúvio de Deucalião.
Segundo a lenda, a Atlântida teria sido uma maravilhosa ilha onde existia uma civilização extremamente evoluída. Muitos acham que foi o filósofo grego Platão quem primeiro escreveu sobre a Atlântida. Na verdade, o primeiro a escrever versos falando de Atlântida foi Sólon, famoso administrador de Atenas. Sólon ouviu falar da lenda da Atlântida quando viajou para a cidade de Saís, no Delta do Rio Nilo.
Saís foi uma das cidades que mais sofreram com os tsunamis provocados pela erupção do vulcão na Ilha de Thera, em 1.645 antes de Cristo. Um sacerdote de Saís, chamado Thereupon, contou para Sólon a lenda da destruição de uma grande ilha, no meio do oceano, chamada Atlântida.
Concepção artística de como os antigos imaginavam a Atlântida

Sólon resolveu então escrever alguns versos sobre esta história. Estes versos se perderam, mas a história prosseguiu e, anos mais tarde, chegou aos ouvidos de Crítias. Crítias era o tio-avô de Platão, ou um primo mais velho da sua mãe, e contou para Platão sobre os versos que Sólon tinha escrito a respeito de uma ilha misteriosa, no meio do mar, e que havia sido destruída por um grande cataclisma.
Platão ouviu aquela história e decidiu contá-la nos seus livros “Crítias” e “Timeu”, aonde ele narra os diálogos que teve com seu tio e outras pessoas. Foi assim que a lenda sobre a Ilha da Atlântida chegou até os nossos dias!
O Dilúvio de Zeus e Poseidon influenciou a lenda da Arca de Noé.
Quanto à história da arca construída por Deucalião e sua esposa Pirra, para se salvarem do grande dilúvio, ela é contada na Mitologia Grega, e deve ter influenciado a história bíblica da Arca de Noé.
Zeus, o maior de todos os deuses gregos, estava zangado com as atrocidades humanas, e decidiu destruir a espécie humana com um grande diluvio. Para isto, teve que pedir a ajuda do seu irmão Poseidon, o senhor dos mares, das tempestades e dos terremotos. Poseidon era adorado na Ilha de Creta. Acontece que o titã Prometeu não queria que seu filho Deucalião, (o mais justo dos homens), e sua esposa Pirra, (a mais virtuosa das mulheres), morressem neste grande dilúvio. Tratou então de aconselhá-los para que construíssem uma arca, que iria flutuar sobre as águas.
Monte Parnaso, perto de Delfos, foi onde parou a arca de Deucalião
Quando Zeus inundou a Terra, apenas o cume da Montanha Parnaso, que tem 2.460 metros de altura, ficou para fora. Segundo a Mitologia Grega, o Monte Parnaso, perto de Delfos, é uma das residências do Deus Apolo e das suas 9 musas! Foi no Monte Parnaso que a arca de Deucalião conseguiu abrigo. Deucalião e Pirra caminharam depois para o Templo de Têmis, que ficava no Monte Parnaso, onde consultaram a Deusa da Justiça sobre como deveriam proceder. Têmis lhes orientou para que jogassem várias pedras sobre os ombros, e assim eles fizeram. As pedras que Deucalião jogava transformavam-se em homens, e as pedras que Pirra jogava transformavam-se em mulheres. Assim, a Terra foi povoada novamente. A Mitologia fala que um dos filhos de Pirra com Deucalião foi Heleno, o mais antigo ancestral do povo grego.

Destruição do litoral norte de Creta e da Foz do Rio Nilo:
A erupção do vulcão na Ilha de Thera demorou 3 dias, antes de acontecer a grande explosão. Durante este tempo enormes ondas foram formadas, e aconteceu um grande terremoto, que causou um gigantesco tsunami com mais de 100 metros de altura! Estas ondas espalharam-se pelo Mar Mediterrâneo e atingiram outras ilhas e regiões importantes, tais como o litoral norte da Ilha de Creta e a foz do Rio Nilo.
Os cretenses formavam um povo alegre e festivo.
As cinzas e a fuligem, expelidas pelo vulcão, prejudicaram muito as plantações de várias regiões, provocando fome e revoltas populares!
A Civilização Cretense, também conhecida como Civilização Minoica, era formada por um povo alegre e festivo. Sua capital ficava na cidade de Cnossos, onde suas mulheres gostavam de exibir os seus seios nus e os palácios eram ricamente ornamentados.
Mulheres cretenses dentro do Palácio Real do Rei Minas, em Cnossos.
Os navios cretenses transportavam artigos por quase todo o Mediterrâneo e chegava até a Sicília e o Egito. Eles transportavam produtos como o azeite, vinho, cerâmicas, joias e tecidos. A escrita usada pelos comerciantes e eruditos minóicos, a Lineal A, infelizmente ainda não foi decifrada!
Na Ilha de Creta, situada a cerca de 110 quilômetros de Thera, as grandes ondas começaram a chegar cerca de 40 minutos depois das primeiras explosões! Isto causou a destruição da frota naval e das construções situadas ao longo do litoral norte cretense. As cinzas lançadas pelo vulcão de Thera cobriram os campos, destruindo as lavouras. Muitas pessoas morreram e muitas plantações foram destruídas, contribuindo assim para o enfraquecimento da economia e do poderio naval minoico.
Príncipe de Cnossos retratado num afresco
Creta estava passando por um período de decadência, e Thera era uma das suas principais colônias! Os anos foram passando, mas Creta não conseguiu mais recuperar o seu antigo apogeu, ficando cada vez mais fraca, o que facilitou a sua invasão pelos povos aqueus, vindos do norte e do continente grego, por volta de 1450 antes de Cristo.
Os povos aqueus formavam uma aristocracia de guerreiros experientes, cuja capital ficava na cidade de Micenas. Outras importantes cidades da civilização micênica eram Tirinto, Pilos e Argos. Depois da destruição de Creta, e da sua capital Cnossos, durante a Idade do Bronze Grego, a cidade de Micenas transformou-se na mais importante da Grécia, por um período de mais de 300 anos.
As grandes ondas também atingiram o Egito, e os litorais da Fenícia e da Anatólia. No Vale do Rio Nilo, as ondas chegaram com menos intensidade do que em Creta, mas apresentavam uma grande altura, com cerca de 20 metros, que foi suficiente para invadir o vale e destruir casas e plantações. As cinzas cobriram os campos e destruíram a água usada nas lavouras. Isto causou fome e a revolta da população, o que contribuiu para o enfraquecimento do poder do faraó da décima quinta dinastia egípcia.
Plantações na Planície do Delta do Rio Nilo foram atingidas pelo tsunami
O Egito tornou-se uma potencia mais fraca, o que contribuiu para a invasão definitiva dos Povos Hicsos, vindos do Oriente Médio, da região de Canaã. Os povos hicsos eram vistos com  um certo preconceito pelos nativos egípcios, pois estes os tratavam com maldade e os chamavam pejorativamente de “vagabundos das areias”. Os hicsos começaram a invadir o Baixo Egito por volta de 1.750 antes de Cristo, em busca de alimentos, e foram se instalando gradativamente naquela região.
Com os acontecimentos causados pelos tsunamis, que destruíram o Delta do Nilo, os hicsos aproveitaram para tomar o poder e implantar a sua dinastia, que durou quase 200 anos, e ficou conhecida como a décima sexta dinastia do Egito! Sua capital foi implantada na cidade de Aváris, no lado leste do Delta do Rio Nilo.

Continuação da atividade eruptiva do vulcão de Santorini:
Ocorrida por volta de 1.645 antes de Cristo, a Erupção de Thera, ou Explosão Minóica, no Mar Egeu, foi a mais forte explosão já vista na Terra! Gerou maremotos, tremores de terra, terremotos e um forte tsunami que varreu o litoral de várias das ilhas do Arquipélago das Ilhas Cyclades e chegou até o litoral do Egito.
A erupção, que durou 3 dias, também derramou muita lava, provocou muitas nuvens de cinzas e fuligem que destruíram plantações na Europa, no Oriente e até na China! A cidade de Acrotíri, capital de Thera, e o seu próspero porto, também foram imediatamente destruídos e soterrados pelas lavas e cinzas do vulcão. A explosão da boca do vulcão provocou a destruição de quase toda a Ilha de Thera, deixando apenas uma grande cratera e algumas pequenas ilhas, que hoje formam o arquipélago de Santorini. Com o passar dos anos, apareceram duas pequenas ilhas, no meio da cratera formada por aquela terrível explosão.
Vista aérea da Ilha de Nova Kameni, em Santorini
Estas duas ilhas são o resultado da atividade eruptiva e do derrame de lava do vulcão, que ainda está ativo! Elas se chamam Velha Kameni e Nova Kameni, e recebem a visita de centenas de turistas todos os meses.
Segundo afirmam alguns geólogos, antes desta terrível explosão, já haviam ocorrido 12 importantes fases eruptivas na Ilha de Thera. Entretanto, nos últimos 400 anos, a ilha Nova Kameni foi ficando cada vez maior. Durante o século XIX, entre 1866 e 1870, Santorini apresentou erupções de lava consideráveis que destruíram as casas de um pequeno porto construído na Ilha de Nova Kameni, onde fica a boca do vulcão.
Os turista caminham pelas trilhas que levam até a cratera do vulcão de Nova Kameni, em Santorini, na Grécia.

Em agosto de 1925 o vulcão voltou a ficar ativo e, durante 6 meses, houve derramamento de lava, formação de gêiseres e vapores, e também uma grande coluna de fumaça, com 3,5 quilômetros de altura. Isto levou o Governo da Grécia a proibir a presença de pessoas naquela ilha durante a noite. Várias erupções e derrames de lava também ocorreram no final da década de 30.
Aparelho registrando os sismos da cratera de Santorini
Nos dias de hoje, apesar do vulcão estar mais inativo, ele pode acordar a qualquer momento para iniciar um novo ciclo de erupções, motivo pelo qual as autoridades estão instalando sismógrafos e diversos aparelhos que medem o seu comportamento, a fim de providenciar uma possível retirada da população da Ilha de Santorini.

Atividade turística em Santorini:
Enquanto uma nova tragédia não acontece em Santorini, os turistas vão aproveitando para conhecer melhor a ilha que está se formando no interior daquela grande cratera. No norte da Ilha de Nova Kameni existem fontes de águas termais, que brotam do fundo do mar e formam as águas quentes, propiciando o banho coletivo. Este local, onde a água do mar é mais escura, é chamado de “Águas Vermelhas”.
Banho coletivo dos turistas nas águas quentes de Nova Kameni.


Os barcos e escunas trazem os turistas, que ficam hospedados em Santorini, para conhecer a cratera do vulcão e ver de perto a atividade que ainda existe no seu interior. Excursões são planejadas antecipadamente e já existem até cavalos e mulas esperando para levar os turistas através das trilhas daquela ilha.
Na Ilha de Nova Kameni existe até uma pequena praia, que atrai os turistas que querem sentir a sensação de estar tomando Sol no local da maior explosão vulcânica que já aconteceu no nosso planeta.
Casas e pousadas da Ilha de Santorini, na Grécia.

As pousadas e hotéis situados em Santorini dispõem de grandes comodidades, piscinas e uma vista privilegiada da grande cratera. Pessoas de todo o mundo procuram seus aposentos, para conhecer o que restou da antiga Ilha de Thera e ver as ruínas de Acrotíri, os objetos e as pinturas antigas, que foram delicadamente recuperados, e para tirar muitas fotos.
Hoje, o local daquela terrível tragédia geológica transformou-se numa das maiores atrações turísticas da Grécia e da Europa!
Modelo tirando fotos em Santorini, na Grécia.